
 |
As 10 melhores
inovações brasileiras
|
17.11.2005
Ranking elaborado por especialistas relaciona
produtos e serviços que mais se destacaram
|
Volkswagen
- Pioneira na tecnologia bicombustível
|
|
|
A seguir, EXAME traz o
ranking dos dez produtos mais inovadores já lançados
por empresas brasileiras. A escolha foi feita
por alguns dos mais conceituados especialistas
acadêmicos da área de inovação e inclui de
uma família de jatos da Embraer a um sabão em
pó desenvolvido pela subsidiária da Unilever
especialmente para o Nordeste. Mais do que um
rol de idéias originais, a lista joga luzes
sobre questões enfrentadas pelas empresas e
mostra o que o pioneirismo pode significar para
o sucesso de um negócio. Na maioria dos casos,
as companhias responsáveis pelas inovações se
tornaram líderes nesse mercado.
| As grandes idéias lançadas por
empresas nacionais nos últimos anos,
segundo dez dos maiores especialistas em
inovação no país |
| 1º - Aeronaves da família
170/190, da Embraer |
| Principal mérito: ocupou um
nicho inexplorado, o mercado de 70 a 110
assentos. Desde o lançamento do
produto, em 1999, foram vendidos mais de
400 modelos |
| 2º - Sistema bicombustível da
Volkswagen |
| Principal mérito: mudou
completamente o mercado de automóveis
no Brasil. Hoje, mais da metade dos
carros produzidos no país tem o sistema
bicombustível |
| 3º - Soja para baixas latitudes,
da Embrapa |
| Principal mérito: sementes
desenvolvidas pela empresa permitiram o
cultivo na região do cerrado, que
responde hoje por 40% da produção de
grãos do país |
| 4º - Água-de-coco em caixinha da
One |
| Principal mérito: aumentou as
exportações do produto para os Estados
Unidos ao posicioná-lo como um dos
concorrentes do Gatorade no mercado de
bebidas energéticas |
| 5º - Ecosport, lançado pela Ford |
| Principal mérito: foi o
primeiro carro no estilo off-road lançado
no país com preço mais acessível que
o dos modelos importados |
| 6º - Chapas de aço pré-pintadas,
da CSN |
| Principal mérito: o produto
possibilita aos clientes ganhos de
produtividade, economia de custo de
processo e redução de estoque |
| 7º - Exploração em águas
profundas, da Petrobras |
| Principal mérito: a tecnologia
contribuiu decisivamente para deixar o
país próximo da autosuficiência em
petróleo e é exportada hoje para
outros paíse |
| 8º - Sabão em pó ala, da
Unilever |
| Principal mérito: exemplo de
sucesso de um produto feito com fórmula
e preço sob medida para um mercado
específico (no caso, o Nordeste
brasileiro) |
| 9º - Software anti-spam da
Safestmail |
| Principal mérito: simples de
instalar e integrado ao sistema Outlook,
tornou-se um dos programas do gênero
mais baixados pelos usuários de
internet no Brasil |
| 10º - Abertura de latas ploc-off,
da Brasilata |
| Principal mérito: além de
facilitar o manuseio para os
consumidores, a tecnologia permite
economia de materiais na confecção de
embalagens |
1 Desistiram de esticar o
avião
Uma simples adaptação num produto já
existente seria suficiente para conquistar um
novo mercado? Em 1997, essa era a maior questão
não respondida dentro da Embraer. Na época, os
engenheiros da empresa haviam começado a
discutir o projeto de um avião para ser
utilizado em rotas regionais. Uma das
possibilidades era esticar a capacidade do
modelo 145, com 50 assentos, que a empresa havia
acabado de lançar. Aos poucos, essa opção foi
abandonada e a Embraer resolveu investir cerca
de 1 bilhão de dólares para fazer um avião
completamente novo. Assim surgia a família
170/190, composta de quatro modelos, com
capacidade para entre 70 e 110 assentos. Desde
1999, ano de lançamento da nova família, foram
vendidas mais de 400 aeronaves.
2 O longo caminho do
bicombustível
Em 1998, a Volkswagen desenvolveu um Gol
bicombustível para apresentá-lo em feiras
internacionais. Parecia uma ótima idéia, mas
ela permaneceu engavetada por cinco anos.
"Havia um trauma dos consumidores com relação
ao carro a álcool e não sabíamos como seriam
tributados os bicombustíveis", diz Paulo Sérgio
Kakinoff, diretor de marketing e vendas da
Volkswagen. Aos poucos, essas questões foram se
resolvendo. Primeiro, o governo definiu que os
bicombustíveis pagariam alíquota de IPI mais
baixa, com os mesmos incentivos dos veículos a
álcool. Isso permitiu que a fábrica
conseguisse colocar no mercado em 2003 o Gol
Total Flex ao mesmo preço do modelo comum, o
que acabou quebrando as resistências ao novo
produto. A inovação mudou a cara do mercado
brasileiro. As outras montadoras embarcaram na
tecnologia e, hoje, mais da metade dos carros
sai das fábricas com o sistema bicombustível.
A Volkswagen é atualmente a líder desse
mercado e trabalha para ser a primeira montadora
a instalar essa tecnologia em 100% de sua frota,
programando o lançamento do Golf Total Flex
para março de 2006.
3 A tecnologia que salvou
a lavoura
As sementes do impulso fundamental da indústria
de agribusiness nacional foram lançadas quando
um núcleo de sete especialistas da Embrapa
debruçou-se sobre o desafio de tropicalizar a
soja. Planta de origem asiática, ela só se
adaptava bem nos estados mais ao sul do país.
"Do Paraná para cima, a planta atingia no
máximo 15 centímetros, um sexto de sua altura
normal", afirma o engenheiro agrônomo José
Francisco Ferraz, que fez parte do grupo que
tratou do problema em meados da década de 70.
Foram necessários anos de pesquisas num banco
genético com informações sobre mais de 8 000
tipos de soja até se chegar à planta capaz de
evoluir bem em regiões mais quentes. O impacto
da inovação foi formidável. De pouco mais de
300 000 toneladas produzidas em 1973, o Brasil
saltou para os 53 milhões de toneladas da safra
atual.
4 Água-de-coco para
exportação
Ao olhar o mercado americano de produtos
naturais, com faturamento estimado em 42 bilhões
de dólares por ano, o jovem empresário Rodrigo
Veloso, de 26 anos, não entendia como o consumo
de água-de-coco embalada em caixas ou garrafas
era quase irrisório nos Estados Unidos. "Só
os latino-americanos compravam", diz. Para
resolver o problema, ele criou em 2004 um plano
de marketing para posicionar o produto no mesmo
nicho de mercado de bebidas isotônicas, como o
Gatorade. No começo de 2005, o plano saiu do
papel, com a criação da One Natural Experience
(ONE), empresa com escritórios em Belo
Horizonte e Los Angeles. Anúncios em jornais
locais e nos pontos-de-venda enfatizam as
vantagens da ONE sobre as bebidas isotônicas.
As exportações do produto começaram em
fevereiro, com um lote de 10 000 unidades, e vêm
evoluindo a um ritmo impressionante.
"Devemos fechar o ano com uma média de 500
000 unidades por mês e há potencial para
multiplicar por seis esse volume em 2006",
afirma Veloso.
5 Off-road popular
A imagem de um veículo utilitário esportivo
está ligado a veículos com motores possantes,
interior luxuoso e tração 4x4 para enfrentar
terrenos acidentados. Assim é nos Estados
Unidos, onde o conceito surgiu. Em pesquisas
realizadas em 1998, a Ford detectou que a fórmula,
com algumas adaptações, poderia transformar-se
num sucesso de vendas no mercado brasileiro.
Surgia, assim, o EcoSport. No projeto, os técnicos
da montadora investiram no design externo, com
linhas agressivas, e economizaram no acabamento
interno, para lá de espartano. Foi um sucesso.
O pioneirismo ajuda o modelo da Ford a se manter
até hoje na liderança desse mercado. São mais
de 80 000 unidades vendidas por ano, quase o
dobro da média registrada em 2003, ano de lançamento
do EcoSport.
6 Chapas de aço sob
medida
Com o lançamento, em 2003, das chapas de aço
pré-pintadas, a Companhia Siderúrgica Nacional
(CSN) mostrou que é possível a uma empresa de
commodities fazer produtos com maior valor
agregado. "Essa mudança exigiu uma alteração
considerável de mentalidade da empresa, dos
executivos à equipe de vendas", diz Luiz
Fernando Martinez, diretor comercial da CSN.
"Estávamos viciados em trabalhar apenas na
base 'toneladas de aço produzidas por hora'
como critério de eficiência." As chapas
de aço pré-pintadas custam em torno de 1 200 dólares
a tonelada, quase o dobro de uma chapa comum.
Sua principal vantagem é que podem entrar
direto na linha de produção dos clientes,
economizando tempo e eliminando gastos como a
manutenção de linhas de pintura dentro das fábricas.
7 Investimento em águas
profundas
Vale investir alto numa nova tecnologia para
acelerar a produção ou esperar alguns anos
para comprá-la depois que ela já estiver
disponível no exterior? Em meados dos anos 80,
com a descoberta de grandes reservas na bacia de
Campos, no Rio de Janeiro, a direção da
Petrobras se dividia entre essas duas correntes.
Venceu a ala que defendia o desenvolvimento
nacional da tecnologia. Na época, foram
investidos 700 milhões de dólares no projeto.
O resultado apareceria anos depois. Até o fim
de 2005, a Petrobras deve anunciar a auto-suficiência
em petróleo. Mais de 70% da produção é
retirada do fundo do mar, o que faz da empresa a
líder mundial nessa tecnologia.
8 Imersão no Nordeste
Conquistar os compradores de baixa renda
continua sendo um desafio para a maioria das
empresas. Uma experiência bem-sucedida da
unidade brasileira da Unilever mostra que,
muitas vezes, é necessário fazer um trabalho
de imersão na realidade desses consumidores
para aprender a se comunicar com eles, despir-se
de preconceitos e, sobretudo, desenvolver o
produto certo para esse tipo de consumidor. Foi
assim com o sabão em pó Ala, lançado em 1996,
que ampliou o poder de penetração da Unilever
no Nordeste brasileiro. A empresa só conseguiu
desenvolver a marca depois de despachar para a
região uma equipe de profissionais de diversas
áreas, que passou seis meses por lá conhecendo
os hábitos dos consumidores. Entre outras
coisas, eles notaram que detergentes
acondicionados em caixas de papelão eram
desastrosos para donas-de-casa acostumadas a
lavar a roupa à beira do rio. O Ala chegou ao
mercado embalado em sacos plásticos, muito mais
resistentes.
9 Negócio anti-spam
O empresário Oswaldo Romano Junior sempre se
incomodou profundamente com os spams que iam
parar na sua caixa de correio eletrônico. No
ano passado, ele transformou essa irritação no
SafestMail, um programa anti-spam para o sistema
Windows que está fazendo sucesso na internet.
Em pouco tempo de vida, a versão gratuita do
produto acumulou 250 000 usuários, tornando-se
um dos softwares mais baixados no Brasil nessa
categoria. Além de simples de instalar, o
SafestMail permite que o usuário determine
previamente a lista de usuários autorizados e
tem quatro níveis de proteção contra spams
(os principais concorrentes possuem apenas três).
Nos últimos tempos, Romano passou a vender versões
pagas e mais sofisticadas do produto para as
empresas, ao preço de 40 reais por ano cada
licença.
10 Time de inventores
No comando desde 1997 da Brasilata, uma das
maiores fabricantes brasileiras de latas de aço,
o executivo Antonio Carlos Teixeira Álvares
gosta de dizer que o maior feito de sua gestão
foi ter formado um time de 900 inventores. Esse
número corresponde ao total de funcionários da
companhia. "Estimulamos as pessoas a dar idéias
e temos um sistema eficiente de coleta e análise
de sugestões para novos produtos e
processos", diz ele. Nas fábricas, há uma
série de quiosques espalhados para coletar as
idéias dos funcionários. Elas já se
transformaram em 45 patentes registradas no
Brasil e no exterior, como a do sistema de
abertura de latas ploc-off, que facilita o
manuseio, ajuda na conservação dos alimentos
após a primeira abertura e economiza material
na produção da embalagem. De onde saiu a idéia?
"Foi de uma funcionária do nosso
departamento de recursos humanos", diz Álvares.
Os especialistas que
participaram da votação: Anna Goussevskaia
(Fundação Dom Cabral-MG); Fernando Mindlin
Serson (FGV-SP); Francisco Emilio Baccaro Nigro
(USP); José Antônio Lerosa de Siqueira (USP);
José Augusto Corrêa (FGV-SP); Ladislas Dowdor
(PUC-SP); Moacir de Miranda Oliveira Júnior
(FGV-SP); Paulo Henrique Sandroni (PUC-SP);
Rafael Telo (Fundação Dom Cabral-MG); Tales
Andreassi (FGV-SP)